Alagoas está acordando? Ou é só
mais um sonho? Quero acreditar que 12 mil pessoas debatendo a segurança pública
de Alagoas em menos de 24 horas na rede social não seja mais um “blá blá blá”, como nós mesmos
nos referimos aos discursos dos políticos demagogos.
Todos os dias, nesse Estado, acordam pessoas
para trabalhar, pessoas para fingir que trabalham e outras que nem sequer fingem,
mas recebem. Há críticos que são muito bons, destrincham em poucas palavras a
situação que vivemos: bons de palavra, fracos de ação. Há pessoas que agem, até
comparecem, só para ver se vai dar errado. E para essas, sentir que vai dar errado
pode ter um gosto bom. O gosto de ter o pretexto de falar mais, e expressar a
indignação mais do mesmo, sem nenhum respaldo no final.
E os alagoanos, como um todo, o que são? Na última conversa
que tive com o historiador Luiz Sávio de Almeida, eu absorvi um questionamento.
Ele me perguntou quando foi a última mobilização em prol de “alguma coisa que
fizemos”? Eu não soube responder.
Atualmente me deparo com uma sociedade revoltada com o
assassinato de um médico, de 65 anos, em plena atividade, salvador de vidas,
pai de família, desportista e avô. Anos de estudo, anos, de dedicação, ceifados
por causa de uma bicicleta de R$ 300 reais, certamente a ser trocada por nóia e algumas
viagens.
Sem ter tempo de dizer “eu lhe dou a bicicleta”, José Afredo
morreu, com um tiro nas costas. Seu filho, André Palmeira, disse ter ouvido de
uma testemunha que seu pai indagou o bandido, após o crime: “porque você fez
isso comigo?”, disse Zé, sôfrego.
Embora José, também fosse Zé, Zé Alfredo, para os amigos,
pertencia a uma classe social de poder aquisitivo alto. Fruto de trabalho, suor
e uma vida abnegada da medicina. Zé era professor universitário, formou novos
médicos, multiplicou o salvamento de vidas, permeou pelos caminhos e pessoas mais
influentes da sociedade. Certamente ele conheceu pessoas que têm em suas mãos
parte da máquina pública, condições e vozes mais fortes para reverter problemas
sociais.
Preparo o terreno, também, para chegar à cena do crime. Um
local arborizado, num bairro classe nobre de Maceió, uma praça onde famílias
tradicionais saem de suas casas para passear com suas crianças, seus cães, para
bater um papo, ler um jornal. Embora o cenário agrade os olhos de um bom turista,
novos personagens foram aparecendo. Usuários, traficantes faziam do encanto da
Praça Vera Arruda um local para suas transações e “chapações”. As relações
extra-sociais ali na praça assustaram os tradicionais frequentadores e a tornou
mais deserta; o deserto atraiu a facilidade para a emboscada.
Mas situações como essa não é de estranhar nos bairros do
Benedito Bentes, Vergel, Santos Dumont, Clima Bom II, Mata do Rol (Rio Largo),
Tabuleiro, Bom Parto e Levada. Em algum lugar desses, por enquanto, está sendo
impossível não morrer gente todos os dias. Os leitores mais assíduos dos
jornais Já devem ter percebido a regra geral do mundo homicida maceioense:
faixa etária de 15 a 25 anos, homem, usuário, negro, pobre. Todos os dias.
Quando a vítima é muito querida na comunidade pode haver até
uma aglomeração de curiosos diante do corpo coberto por integrantes do IML. No
máximo a mobilização pode desencadear a queima de alguns pneus e o fechamento
da via, consequentemente.
Não há pronunciamento do governador, do Secretário de Defesa
Social, do promotor, do desembargador, nem do arcebispo, talvez o padre fale no
sepultamento.
O contraponto não serve para ter raiva e criticar o alarme
que é feito quando situações corriqueiras acontecem com pessoas de classe
social e nível intelectual, digamos diferente. A morte é igual para todos. A
vida de todos tem o mesmo preço, que é viver. O doutor pode sofrer os mesmos
sintomas que o paciente, o doutor pode sofrer os mesmos sintomas que o peão.
Mas na cabeça dos gestores, é o tipo da coisa que só se
concebe na base do “eu só acredito vendo”. A sociedade viu. Viu que Maceió não
é tranquila. Quem nunca andou de ônibus e nunca saiu do gabinete com ar
condicionado e café expresso vai ter medo de caminhar na orla de Maceió, que
parecia ser um lugar tão tranquilo.
Nada amedronta mais a quem está no poder do que a
proximidade dos fatos que abalam a massa. Agora quem está no poder começou a
sentir que é povo também, e que a blindagem do automóvel ou a sua velocidade
não poderá correr da marcação dos revólveres de calibre 38 e pistolas de calibre
380.
Quem tem mais idade e sempre confiou no transporte, nas
roupas, nos lugares “nobres”, se depara com espécies de criminosos mais
eficientes: adolescentes com sangue nos olhos, famintos de algum tipo de
afirmação e visualizando no semblante de qualquer pessoa a imagem de um “playboy”
- político corrupto que não falta em Alagoas; “recém-educandos” do Cyridião
Durval e Baldomero Cavalcante, cumprindo pena em regime semi-aberto, que é a
mesma coisa de aberto em Alagoas; os outros são os “garotões-correria”, que na
oportunidade “dão o ganho”, em algum vacilão, “playboy”, para eles.
Um médico morreu. Poderia ser um catador de latinha.
Poderíamos estar resignados como sempre estivemos, se essa segunda hipótese
tivesse se sobressaído. Mas não foi o que aconteceu. A morte do catador de
latinha nunca vai ser superior. Eis a realidade: quando se trata de um médico o
problema é maior. Você queira ou não. Deixemos a hipocrisia de lado e aceitemos
a realidade. A carga é maior porque o tal homem tinha relevância social e, o
principal, não diferenciava as classes sociais, nem cor e credo em suas
cirurgias e diagnósticos.
No final das contas, temos um problema: a criminalidade.
Amanhã pode ser qualquer um. As críticas sobre a mobilização têm o mesmo efeito daquelas
feitas pelos que pedem a mobilização e não a fazem. Porque criticar uma sociedade
que resolve erguer as mangas, lutar pelos seus direitos, quando o estopim
trata-se da morte de uma pessoa de classe média alta é a mesma coisa de dizer:
não façam isso! Eles não merecem! Esqueçam! Muitos pobres já morreram! Porque
só agora? Traduzindo: deixam para lá esse caso. Esperem mais pobres morrerem,
para mostrarmos que somos justos com os mais oprimidos e daí vamos nos
mobilizar. Mas isso não vai acontecer. Porque o ser humano é tão preconceituoso
que o próximo pobre a morrer com repercussão na mídia vai ser visto com a
conduta duvidosa. Esses mesmos vão dizer: “Traficante!”, “é nóia”, “acerto de
contas”. “usuário”, “marginal”.
Sempre, mesmo que eu não queira, vou me deparar com
insinuações radicais sobre o problema da bandidagem em Alagoas. E lá vão eles: “bandido
bom é bandido morto”. Prefiro uma sutil correção da frase que já caiu em mais
do mesmo popularesco. “Bandido bom é bandido na cadeia”. Para mim o Baldomero
não é cadeia, é um antro animalesco de sujeira, fezes e cotonetes na quentinha.
O ser humano merece dignidade. É o mínimo que podemos ter para não sermos
contaminados por essa barbárie cega de tanto querer sangue, sangue, e no final das contas
não sabemos dizer nem sequer o que é Justiça para nós mesmos. “Bandido
bom é aquele que acerta suas contas com a Justiça”. E Justiça boa é aquela que
cumpre as escrituras sagradas da nação, negligenciadas por nós por estarmos
cegos de mais querendo: o sangue do bandido.
Adolf Hitler, o mais perverso dos ditadores, marginalizou
uma parte da nação alemã e trabalhou a cabeça da outra parte. O resultado foi
um genocídio, pessoas inocentes morrendo nas câmaras de gás, só por não serem
da raça ariana, ou serem judeus. Fico me perguntando. Como uma nação pôde crer
em tamanha imbecilidade? Hoje vejo que é possível sim, cairmos nesse devaneio.
Porque, no final das contas, as pessoas querem a morte de psicopatas,
estupradores, pessoas com alguma patologia psicológica, ou um serial killer.
No meio dessa safra, tem alcoólatras, desempregados,
usuários de crack, órfãos, miseráveis, analfabetos, artistas populares sem
perspectiva por falta de incentivo; policiais militares e civis; padres,
pastores; secretários, vereadores, deputados, catadores de latinha que só
ganham R$ 200 por mês; pais que vingaram a morte dos seus filhos; filhos que
vingam a morte de seus pais, vítimas do próprio irmão por causa de falta de
comida.
Sou jornalista, tenho a vida muito corrida. É uma profissão
muito árdua, mas muito gratificante. Eu trabalho com a mente, um computador,
caneta, bloco e gravador, na rua... Com 24
anos eu pude perceber que minha imunidade estava baixa. E o que isso tem a ver?
Não é o jornalismo. Mas a alimentação. Hoje, graças a Deus com saúde, me
alimento seis vezes ao dia. É o suficiente para resistir aos próximos dias e me
manter firme, produzindo. Mas o que isso tem a ver?
Um catador de papelão que ganha R$ 200 por mês não vai
jamais, fazer metade da alimentação que eu faço por dia, apesar de fazer todo o
trabalho braçal, que exige estar nutrido. Todos na vida tiveram a experiência do
jejum, nem que seja para fazer algum exame médico. Todos sabem como é a
experiência de passar oito horas sem se alimentar. O primeiro sintoma é a
alteração do humor.
O catador de papelão não tem comida, mas ele precisa trabalhar.
Não todos, mas uma parte tem a necessidade de uma boa latinha de Pitú. O
trabalho fica mais saboroso, a força aparece, e o pobre catador de latinha se
transforma no grande super-homem no seu torpor, capaz de percorrer os bairros
mais sórdidos da capital alagoana em busca de papel.
O seu filho, da velha geração favela, e da nova geração do
crack, não teve escola porque sempre ela entrou em greve e não havia estímulo. O
mesmo não tem emprego porque não tem qualificação para nada. E também não acha
justo catar latinha ou papelão, enquanto o moleque que há pouco tempo jogou ximbra
consigo tem a grana para dar um “rolé” de shineray, tem aquela boa bermuda, e
aquela bela gatinha, tão cobiçada na comunidade.
Alagoas vence no analfabetismo, é a terra de Zumbi dos
Palmares, mas também a terra da cana de açúcar que favoreceu os usineiros e
escravizou camponeses negros, como até hoje se faz. Alagoas é terra de negros,
terra onde mais se mata negro. O pior é que aqui existe o medo de se falar:
negro. É terra de pobre, e por ser pobre, é a terra onde mais se mata pobre.
Então, é o que somos afinal. Pobres. Mesmo que não sejamos
em nossas residências, mas somos nas nossas relações, convivendo a parte
estrutural do trabalho que realizamos em qualquer aspecto, na realidade das
nossas repartições que dependemos para adiantar a nossa vida.
Sim, somos pobres, em maioria somos negros, sem curso
superior, sem carro blindado ou ar condicionado no gabinete que nem sabemos o
que é. Bons ou ruins, “juntos e misturados”, acima de tudo, somos cidadãos
frágeis, vulneráveis, até então sonolentos.
O que queremos? Não sei.
Ótima resposta para um texto tão longo? Sei que não.
Mas o que eu vejo
quererem é: o massacre da serra elétrica de todos os bandidos que atuam aqui em
Alagoas. Isso é extremamente perigoso, uma vez que nos tornamos seres
sanguinários justiceiros e em nossas mentes passamos a ter um instinto deles
também. Lembrem-se, estamos misturados em uma sociedade pobre e vulnerável.
Somos o povo que parte de nós quer execrar. Temos ainda a convicção (o que eu
chamo de sono) de que a culpa é do pobre e sempre será.
Podemos imaginar o crime na favela. Só na favela. Mas eu
consigo imaginar o que imagina boa parte dos nossos escolhidos: “a poeira vai
baixar, logo, logo eles esquecem e eu irei me reeleger. Paciência”.
Consigo imaginar, a sala climatizada com ar condicionado,
móveis coloniais impecáveis, a imagem da presidente da República Dilma Rouseff
e uma TV de plasma no gabinete passando o desenho sem fim: Caverna do Dragão. Imagino
que ele tem certeza que nós estamos na caverna e enfrentamos resignados para
sempre o dragão da criminalidade de Alagoas.
Com as pernas por cima do birô, que é sua propriedade, há
tempo para risos, uma dose de Whisky, um cigarro, uma fruta, uma oração, com a
ênfase no pensamento cristão (que eles também têm): “fé em Deus, eles vão
esquecer. Vão sim”.
Daniel Maia
Jornalista

